A sala de estar está cheirando a cigarros, tem uma garrafa de água em cima do móvel, algumas bolsas (das quais alterno durante a semana) e blusas de frio.
Na cozinha, louças: secas e prontas pra guardar, molhadas e esperando para que sejam lavadas. Algum pedaço de bolo de padaria no forno, um pouco de refrigerante, seguido de latas de cerveja na geladeira. Molho pra salada, entre outras coisas. Chocolate ainda no armário (não pude comer essa semana) e se não me engano, duas balas de canela.
Nas escadas, sapatos, e um chinelo florido.
No banheiro, cremes de corpo, de rosto, cotonetes, até porque me dói não escutar direito enquanto alguém me grita (se alguém gritar algum dia).
Meu quarto, minha cama, meu guarda-roupa, a mesa de canto que ampara tudo, o mural de fotos sem algum retrato ou lembrança. Livros na poeira do apoiador. A televisão sempre ligada, sempre sem som (as vezes, na madrugada, tento imaginar o que eles falam tanto). Alguns, poucos indícios de cigarro, seguido do cheiro do perfume que está em cima da estante.
Tudo isso se parece com a minha alma, em cada cômodo da vida, em cada erro cometido e prometido mudança. Sou a bagunça que destoa com qualquer outro tom, que deseja o peito grande, os olhos fitados e as mãos vazias: meu melhor presente seria o amor, que escapa da minha saliva sem me dar tchau.