Depois da chuva a brisa procede a terra ainda molhada, isso quando, não nos deixa em poças imensas, parecendo que alguém haveria de chorar lá de cima. Os engravatados percorrem o caminho sempre sem riso, pulando por entre o chão ainda molhado, achando que sua firmeza está em estar seco, como sempre são, secos.
Os pais gritam, enquanto os filhos, presos por suas mãos de aços querem pisotear a chuva e se molhar por inteiros enquanto fazem o caminho de casa.
Os ônibus, lotados de gente resolvida da vida, todos de pé como quem aplaude mais um pouco do caos e se faz parte dele, mas os ônibus também estão de janelas fechadas pra chuva não molhar.
E quem, anda sem guarda-chuva, sempre corre com alguma coisa cobrindo a cabeça, como se fosse cair um meteorito, ou então, como se a água queimasse.
Eu, deixo molhar.
Deixo que molhe todas as esperanças dóceis e amargas que podem permanecer em mim sem sucesso, pra que, minh'alma alimente a ilusão de que elas persistam pós a chuva. Deixo que molhe meus olhos fundos para que neles contenham as lembranças mais sérias e mais putas que meu corpo absorveu por entre as linhas da vida. Deixo que molhe a roupa que visto para que pese sob meu peito e ainda assim alivie meu calor, ou que ainda me faça tremer de frio.
Deixo que molhe meu ponto de partida e de chegada.
E deixo que aprendam mais de mim, como eu aprendi de mim com você.