quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Cabides

Ganhei alguns cabides de madeira.
Temo arrumações de guarda-roupa.
Guardo tudo que não cabe, que não serve, que não uso, que gasto excessivamente num ato desgastante de qualquer peça que me sirva pra mera autenticação de caráter. Essas peças permanecem a décadas, intactas, vezes em perfeito estado, conservando lembranças vagas do estado emocional do qual jurei me portar, longe de racionalidade.
Ouvi dizer que a racionalidade é essencial ao cotidiano de cada ser que pisca e que cabe em sua cabeça algo que traga entendimento e valores impostos, mas, sempre sobrevivi ao leo, na deriva e na esquiva de tudo que me causa a ânsia de pensar, na reluta de qualquer vontade em mim causada, seja pelo peito ou pelo seguro desejo que a carne lambuza em lâminas cortantes.
Temo arrumações que causam qualquer tipo de dúvida frequente entre meus ais e meus afazeres, chega a me ofuscar os olhos e a tapar meus ouvidos que escutam vagamente o fundo musical da desilusão de que tudo passa, ou deveria passar.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Devia ter pontos

Sempre chega a hora de arrumar o armário.
É chegada a hora que a poesia se finda e se eterniza, a ponto que, tudo que foi dito ou transcrito se torna inevitavelmente amargo, como um sussurro que chega ao pé do ouvido causando o despertar do seu corpo em calafrios inalcançáveis, mutáveis, e nunca duvidosos de aflição.
Minha poesia sempre foi perfeccionista, ousou em narrar amores inenarráveis, dores incalculáveis, sentimentos indescritíveis, e momentos. Jurei que minha poesia seria o momento eterno de tudo que presenciei, afirmei e calei para consentir, mas, todas elas fugiram da eternização das minhas lembranças, onde não tenho nenhuma decorada.
Vivi de fantasia, com a ilusória certeza que me seria gratificante somente o impasse não vivido, as palavras não ditas, os beijos inalcançáveis e todo amor mordido em forma de lobotomia.
Usei os tres pontos como se fosse fácil, utilizei da forma incorreta e incontornável de manter o que não estava e nem se fazia presente, alucinei milhares de vezes em passos rápidos, e nos devastadores passos lentos a procura de algo que me fosse inteira, que me deixasse longe do impasse que eu sempre forcei ser, forjada a um eterno ciclo de meios, e atormentada se algum dia tivessem eles o fim.
Finalizei de forma amarga a irritação do meu peito na espera, na angustiante espera por qualquer coisa que me fosse doce aos lábios e ardente ao coração. Esqueci-me da alma, da qual me manteve viva e inconstante, alimento meus pesadelos com um maço de cigarros por dias, e não consegui mais me desfazer deles (nem dos pesadelos, nem dos cigarros).
É amargo o gosto do qual me tornei, o restante são só meros encantos que minha beleza carnal e brutal se tornaram quando pregadas a sorrisos diferentes dos meus.