Desculpa.
Eu fecho meus olhos a procura de uma palavra pela qual procuro minha vida inteira.
Perpetuamente a dor veio sobre meus braços. Afogo sobre o mar de sal, e quando chego até a superficie não vejo meu cais. Sobre a luz que escapa entre as frestas de algodão, vejo madeira, mas não me parece um cais, vejo os pés pendurados sobre o mar, como um semblante que se senta e triste se sustenta.
Não sei como cheguei ali, mas agradeço a Deus pela minha salvação e pela tua.
O frio era sobre a face do mar, e o Sol teimava em esquentar as águas, que até pareciam boas para beber, ali, minha sede quase me matava. Via a cicatriz exposta no teu braço, na tentativa de fuga, que você procurava e não via.
Conheci teu semblante, reconheci teu semblante no meu.
Não procurei tua história no livro de capa preta que tu olhavas na intriga de conhecer-te mais. Eu não queria conhece-lo, mas precisava.
Eu vim de longe.
Eu não vim a procura de fuga, ou ajuda, nem de morte ou de vida, busquei fôlego, e achei no teu cais, mesmo sem cobertura por ter sido roubado, mesmo sem riso por ter sido transpassado pela dor. Eu tossia, passava frio, passava fome, passava.
O que eu carrego no peito, não marquei nunca num livro, não sei varrer minh'alma só, por guardar tudo no quintal dela.
Sentei-me, e contei-me: Eu tive um amor, um amor do qual passou por todos os comodos da casa. Tive um amor que jurava-me um desenho, bordado num cd. Tive um amor de olhos escuros, cor de terra, cor de chão. Tive um amor, que por mim vivia a mim, e eu, a ele. Tive um amor que escolheu a ela, e que junto dela escolheu um filho pra criar, tive um amor que me deixou, que fugiu com a amante e que junto com ela engravidou, assim, ando de cais em cais, de rede em rede, de sede em sede, e de fome em fome.
Teu espanto ficara lindo no Sol que não secara meu choro. Nunca te expliquei o por quê do Sol? Pois bem, sou a chuva, a que recriou em mim, e reproduziu num apse em que eu, que só desenhos árvores, desaprendi a desenhar folhas.
E por medo, de perder-me te encontrei, e meu medo passou a ser o perder-te.
Hoje, perdi.
Me vejo no mesmo sal, levantando pro mesmo fôlego, só que me afundo outra vez, pois teu cais, não está lá, e teu riso que bordei, não foi o suficiente pra tu ficar.