segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Amores serão sempre amáveis

Devo ter pânico de páginas vazias.
Assim, me retenho a escrita não só por ortografia, mas também por falta dela. Quando não se tem palavras, como haverá de corrigi-las? Como haverá de escreve-las se o portão do apartamento, a porta do carro, o fechamento da lanchonete e o olhar fixado nos teus lábios não lhe deixavam falar, menos ainda deixariam que eu pudesse repousar o lápis sobre o papel em branco, e desenhar palavras de desencanto, de pranto, de medo e de qualquer coisa que me fizesse ficar. Antes que me pergunte, (o que você jamais faria, por pensar tanto) eu ficaria. Ficaria pelo fato de que eu sou tão intensa quanto passional, tão desencantadora de longe, quanto excitante de perto, e ficaria pra dizer que ainda tem muito mais de mim que ousaria repousar sobre teu peito pequeno, sobre teu desenho de faca que poderia desfazer meu nó no estômago (e esse nó foi ideia sua e eu diria que foi feito por você, em mim, de tal maneira, que jamais será apagado). 
Então, o fim nos borra, nos destrói (digo por mim, e também por você, embora você mantenha a aparência fria e in-tragante como acender um cigarro assim que levanto de manhã), nos aniquila, mas nos levanta (se não agora, um dia), e eu me levanto, sobre o mesmo tom de passos, tragando o cigarro da manhã como se fosse o último, e mantenho a frieza comparada como a desse começo de Primavera. 

sábado, 11 de julho de 2015

São eles

São eles, os encantadores baratos, com copos cheios. São os mesmos que te levam pra cama, que querem sua poesia, seu corpo e alma nus. São os mesmos que se deliciam e deitam sob teu peito. São os mesmos que querem ver beleza em Neruda e Vinicius, que não se explicam, que transpassam a mudez, que deleitam-se no prazer de não dar tudo, mas de receber tudo que puder ser recebido, desde que não acorde ao seu lado e não seja necessário abrir a porta, deixando claro onde fica a chave e dizendo (às vezes) que você pode voltar quando quiser.
Nos retornos, você já conhece o caminho, já sabe o que te espera, e agora, nem tenta o acordar pra dizer que vai embora, ou que está tarde, apenas levanta da cama, coloca suas roupas e pede um táxi até o metrô mais próximo.
Sai de lá jurando que não volta, dizendo que queria ele pra ser seu, mas no fundo sabe que jamais queria ele, e que tanto pra ele, quanto pra você, são somente uma fuga dos amores mal acabados, dos desejos contidos e soltos ali, naquela casa, naquela cama.
Só os procure se quiser uma noite (difícil eles serem mais que uma). Difícil também ter vacina a malandro.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Retorno

São as palavras.
Eu desconto e deixo expor o que não devia ficar à deriva dos olhos alheios e desejos inoportunos de infelicidade, por elas desconto a respiração entre as fumaças de um maço de Marlboro, as mãos trêmulas seguindo o percurso dos lábios, os que soletram as tais palavras.
Sempre acreditei em pontos, pontos de partida, pontos finais, três pontos, e deles nunca falei, nunca os conclui, mantendo sempre um meio fim entre os retornos mornos que minha intensidade teve de engolir muda e aceitando o gosto ruim que o traria ou o levaria novamente.
É tanta falta de conhecimento em cada relação de lábios, tantas juras que nem ao menos juram que pode ser mentira, a falta da entrega, o excesso de fantasias e seu legado.
As palavras ditas não podem ser esquecidas em qualquer gaveta do criado mudo, e se torna chato ser responsável por tudo que cativas sem perguntarem se pode estar disposto a tal.
Quantos erros cabe em um vocabulário feito por interpretação errada? Por entonação? Por sujeito ao predicado.
Doce é saber ser só, e eu, aprendo como posso, desentendo e me alegro: devo estar quase lá.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Novo começo

Tenho vontade de gritar e ficar muda.
Ficar muda a ponto de calar tudo que me sonda e me solidifica num terrível acidente de palavras ditas, sem que fossem calculadas antes da pronúncia do verbo.
Diria que queria o amor, até que ele me veio, pequeno, sem batimentos, sem parecer vida mas a fazendo com tanta graça e beleza, quanto se ver por dentro e saber dos encantos de Deus ao desenhar cada pedaço do seu nú e de sua alma.
Transporto o desejo contido de medo com a receita de falta de carícias vindo de quem o fez nascer, na vida a espera é cansativa e o tempo só pode dar paciência a quem sabe esperar.
Só espero um dia re-aprender a andar.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Cabides

Ganhei alguns cabides de madeira.
Temo arrumações de guarda-roupa.
Guardo tudo que não cabe, que não serve, que não uso, que gasto excessivamente num ato desgastante de qualquer peça que me sirva pra mera autenticação de caráter. Essas peças permanecem a décadas, intactas, vezes em perfeito estado, conservando lembranças vagas do estado emocional do qual jurei me portar, longe de racionalidade.
Ouvi dizer que a racionalidade é essencial ao cotidiano de cada ser que pisca e que cabe em sua cabeça algo que traga entendimento e valores impostos, mas, sempre sobrevivi ao leo, na deriva e na esquiva de tudo que me causa a ânsia de pensar, na reluta de qualquer vontade em mim causada, seja pelo peito ou pelo seguro desejo que a carne lambuza em lâminas cortantes.
Temo arrumações que causam qualquer tipo de dúvida frequente entre meus ais e meus afazeres, chega a me ofuscar os olhos e a tapar meus ouvidos que escutam vagamente o fundo musical da desilusão de que tudo passa, ou deveria passar.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Devia ter pontos

Sempre chega a hora de arrumar o armário.
É chegada a hora que a poesia se finda e se eterniza, a ponto que, tudo que foi dito ou transcrito se torna inevitavelmente amargo, como um sussurro que chega ao pé do ouvido causando o despertar do seu corpo em calafrios inalcançáveis, mutáveis, e nunca duvidosos de aflição.
Minha poesia sempre foi perfeccionista, ousou em narrar amores inenarráveis, dores incalculáveis, sentimentos indescritíveis, e momentos. Jurei que minha poesia seria o momento eterno de tudo que presenciei, afirmei e calei para consentir, mas, todas elas fugiram da eternização das minhas lembranças, onde não tenho nenhuma decorada.
Vivi de fantasia, com a ilusória certeza que me seria gratificante somente o impasse não vivido, as palavras não ditas, os beijos inalcançáveis e todo amor mordido em forma de lobotomia.
Usei os tres pontos como se fosse fácil, utilizei da forma incorreta e incontornável de manter o que não estava e nem se fazia presente, alucinei milhares de vezes em passos rápidos, e nos devastadores passos lentos a procura de algo que me fosse inteira, que me deixasse longe do impasse que eu sempre forcei ser, forjada a um eterno ciclo de meios, e atormentada se algum dia tivessem eles o fim.
Finalizei de forma amarga a irritação do meu peito na espera, na angustiante espera por qualquer coisa que me fosse doce aos lábios e ardente ao coração. Esqueci-me da alma, da qual me manteve viva e inconstante, alimento meus pesadelos com um maço de cigarros por dias, e não consegui mais me desfazer deles (nem dos pesadelos, nem dos cigarros).
É amargo o gosto do qual me tornei, o restante são só meros encantos que minha beleza carnal e brutal se tornaram quando pregadas a sorrisos diferentes dos meus.