sexta-feira, 9 de março de 2012
Alfabeto
Eu queria ter o verdadeiro dom de escrever. O sentido puro dos parágrafos. A qualidade acentuada dos acentos, pra que, a moldura possa se encubir da bagagem das letras formadas pelo primário. Redondas e gordas falam da escrita. As letras são muito bonitas para que a dor as possua tanto. Minh'alma haveria de abrir caminhos, para que, entre as tais silábas serem separadas, todo meu grito as junte novamente. Piro entre os afazeres, entre as regras no que é belo por si. Usam-as da forma errada nas leis do mundo. Por vezes falam sem que elas queiram ser ditas, e se, ditas rápidamente, a língua prende. Afinal, como hei de apressar a calmaria? Se a renda da poesia se borda de agonia, o que as palavras hão de ser soltas se juntas completam-se para um atalho rápido para o que deve ser dito? O que te prende a atenção do amor sem que sejam regadas e podadas cautelosamente? Nela expressa o riso, o choro, a calmaria; o caos do abandono, a dor da morte, a felicidade da vida. Nela escreve o desenho do teu rosto, teu corpo, teus pés e ombros. Se teus olhos soam palavras sofridas, que saem em gotas sucumbidas de explosões no peito. Se as palavras escorregam do rosto, caem ao peito, nos seios da mulher de respeito. A quem se definiria mudo? Se por vezes são faca de dois gumes no risco da vida que te corta a fita do pulmão, do pulso em fé, da que junto ao coração cortou-se e escorregou por entre os pés. Meu desejo em vomitá-las, meu receio em não deixá-las puras, nem dóceis, quando chegam aos meus ouvidos. Quando me fazem suja, e de crueldade teimo em colocá-las de castigo pra que exploda em mim um parto, para que, onde ando elas saem. Por onde grito, elas caem do peito, escorregam, procuram outra vitima, e abocanham. Entre elas, as dificeis idéias de abandoná-las; mas como, se amante da tua rima sou eu? Nunca hei de me deixar acabar por entre tuas rugas de velhas, nem pelas tais mudanças ortográficas. Ai meu português amável, meu inglês meu falado, o francês em melodia. Minhas letras compõem minha vida, compõem minha morte, e só elas que se vão comigo, até o caixão.